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• 31/01/2018 - 14:50 • Atualizado em: 31/01/2018 - 14:53

Carnaval pernambucano para leigos: um glossário com alguns ícones da folia

A folia em Pernambuco é feita da mistura das mais diversas manifestações culturais, do interior à capital. Entenda algumas delas

por Ana Tereza Moraes

É costume dizer que o Carnaval é “a festa mais democrática do mundo”. A fama não vem a toa, já que, durante a folia, a cultura de várias raças se misturam pelas ruas das cidades, em meio às mais diversas manifestações.

Apesar da origem cristã, a festa, com o passar das décadas, foi se tornando cada vez mais multicultural e abrindo espaço para a pluralidade, inclusive de religiões, como as de origem africana, que hoje marcam forte presença. Em Pernambuco, as tradições e as misturas são muitas, vindas desde o interior até a capital.

Entre alguns ícones carnavalescos populares estão ritmos como o frevo e o maracatu, além de grupos como caboclinhos, papangus, troças e blocos. No entanto, mesmo com essa popularidade, nem todos sabem do que algumas se tratam, ou qual o significado e origem delas.

Para ajudar os leigos e também refrescar a memória dos conhecedores da festividade mais esperada do ano, o LeiaJá fez um mini-glossário com algumas explicações:

A La Ursa:

A frase “a La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro” certamente é popular entre a maioria dos pernambucanos. A tradição do personagem de figurino relativamente simples, feito com materiais como latas, pedaços de madeira e retalhos, remetendo a figura de um urso, é muito popular no estado.

Há algumas teorias diferentes sobre como ela teria chegado ao país: a primeira defende que é uma brincadeira que remonta à Itália e foi trazida da Europa no período colonial. Já a outra versão defende que foram os ciganos europeus que deram inicio à tradição. Já uma terceira versão diz que a história começou inspirada pela infância do filho do Marechal Floriano Peixoto, que gostava de brincar com ursos.

 

Caboclinhos:

O grupo tem roupas semelhantes as dos índios, com cocares e outros adereços de pena, representando cenas de caça e combate nos seus passos de dança.

Entre os personagens que compõem os caboclinhos estão o cacique, a mãe da tribo, o porta-estandarte, um conjunto de três tocadores (gaita, maracas e surdo), cordões de caboclos e caboclas e um grupo de crianças ou ‘curumins’.

Como instrumentos são usados o violão, apito, duas maracás de zinco ou flandre e um surdo (bombo) de zinco coberto com couro de bode, para executar os ritmos de guerra e baião.

 

Frevo de rua, frevo-canção e frevo de bloco:

O gênero, que é a cara do Carnaval pernambucano, teve origem no próprio estado no fim do séxulo XIX e é caracterizado pelo ritmo acelerado. Seu nome veio da palavra “ferver”, simbolizando a efervescência e agitação do ritmo. Ele pode ser dividido em três vertentes:

A primeira, o frevo de rua, é aquele tocado por uma orquestra instrumental sem o acompanhamento de uma voz. Já o frevo-canção é mais lento que o de rua, e possui uma melodia mais cantável. Entre os principais representantes dessa vertente estão nomes como Alceu Valença, Claudionor Germano, Capiba e J. Michilles. Por fim, o frevo de bloco é aquele executado por orquestra de pau-e-cordas. Ele costuma ser a música das agremiações chamadas de blocos carnavalescos mistos (ou líricos).

 

Marchinha: 

A marchinha é um gênero musical que por muitos anos foi predominante no período carnavalesco, sobretudo entre as décadas de 20 e 60. Com o passar do tempo, o ritmo foi substituído pelo samba enredo, mas permanece até hoje como um marco cultural do Carnaval, principalmente por ter características consideradas tipicamente brasileiras, como a sátira, a irreverência e o bom humor.

Entre nomes que deram voz ao gênero estão Carmen Miranda, Chacrinha, Moacyr Franco, Emilinha Borba e até Silvio Santos. A primeira marchinha que se tem registro é a ‘Ó Abre Alas’, cantada e composta por Chiquinha Gonzaga em 1889.

 

Maracatu de Baque Virado (ou Maracatu Nação) e Maracatu do Baque Solto (Maracatu Rural):

O maracatu também pode ser dividido em dois tipos. Um deles é o Maracatu de Baque Virado, que é formado por um conjunto musical formado por batuqueiros que sai pelas ruas acompanhando o cortejo real, composto por figuras como o porta-estandarte, Rei e Rainha. O Maracatu Nação, como também é conhecido, tem forte ligação com as religiões afro-brasileiras e relação com orixás e outras entidades.

O outro tipo é o Maracatu de Baque Solto, uma manifestação folclórica com batuques diferenciados e que tem como principal símbolo o caboclo de lança, com suas vestimentas e perucas coloridas. Também chamado de Maracatu Rural, ele se aproxima mais das culturas afro-indígenas, e une diversas tradições populares do interior de Pernambuco.

 

Noite dos tambores silenciosos:

A noite dos tambores silenciosos é uma cerimônia de sincretismo religioso realizada há 57 anos durante o Carnaval do Recife, sempre  na noite de segunda-feira, no Pátio do Terço. Ela reúne diversos maracatus de Pernambuco para louvar a Virgem do Rosário, a padroeira dos negros, e celebrar a cultura africana.

O auge da cerimônia é à meia-noite, com o apagar das luzes do Bairro de São José e o calar das alfaias, que ficam em silencio para que todos ouçam os cânticos e rezas conhecidos como loas ou toadas. A Noite dos Tambores Silenciosos homenageia também os negros os quais, no passado, foram vendidos como escravos e, em alguns casos, foram enterrados no Pátio após a morte.

Papangus:

Papangus são grupos que saem pelas ruas mascarados e com roupas coloridas, quase como um disfarce. As máscaras são feitas de papel de jornal e pintadas com tinta. Os trajes, que hoje costumam ser mais vistosos, não eram tão elaborados antigamente, sendo feitos no passado com panos velhos. A cidade pernambucana com a maior tradição de papangus é Bezerros, no interior do estado, que teriam incluído a brincadeira em sua cultura em 1881.

De acordo com o que os moradores antigos costumam contar, a brincadeira começou com alguns homens que queriam brincar o carnaval pelas ruas sem ser reconhecidos. A nomenclatura teria surgido a partir do fato de que esses homens mascarados tinham o costume de comer angu ao saírem por aí. Com o tempo, começaram a ser chamados de ‘papa-angu’, principalmente pelas crianças, até que o nome pegou.

 

Troças e blocos: 

Bloco carnavalesco é um termo genérico utilizado para definir diversas manifestações culturais. Ele é formado por um grupo de pessoas reunidas de maneira organizada e que desfilam juntas no Carnaval, muitas vezes se identificando por alguma cor, símbolo ou vestimenta.

As troças, por sua vez, são pequenas agremiações com uma estrutura menor do que a dos blocos. Geralmente elas são organizadas por grupos de amigos e conhecidos e saem desfilando pelas ruas durante o dia. São marcadas pelo improviso, descontração e irreverência. 

 

Rei Momo:

O Rei Momo é quem comanda o Carnaval. Com origem na mitologia grega, suas características incluem o sarcasmo, o delírio e uma personalidade zombeteira. Ele é filho do sono e da noite, e, segundo conta a mitologia, chegou até a ser expulso do Olimpo pois costumava ridicularizar e brincar com outras divindades.

A figura apareceu no Carnaval brasileiro no começo da década de 1930, e hoje em dia se firmou entre os principais símbolos da festa. Várias cidades do país anualmente elegem seus respectivos reis Momos. Normalmente é exigido que ele seja um homem animado, que goste da folia, seja simpático, brincalhão e de preferência gordo. Além dele, é costume eleger também uma Rainha do Carnaval. 

 

Créditos das fotos: LeiaJá Imagems/Arquivo e Wikimedia Commons

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