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Tradição • 19/01/2020 - 10:00 • Atualizado em: 19/01/2020 - 10:19

Afoxé, a manifestação que leva o terreiro para a rua

Música, dança e fé se misturam nesse brinquedo popular que brilha no Carnaval

 

por Paula Brasileiro
Júlio Gomes/LeiaJáImagensJúlio Gomes/LeiaJáImagensJúlio Gomes/LeiaJáImagensJúlio Gomes/LeiaJáImagensJúlio Gomes/LeiaJáImagensJúlio Gomes/LeiaJáImagensJúlio Gomes/LeiaJáImagens

O cortejo desce a rua ao som dos atabaques e xequerês. Acompanhando o batuque, as pessoas dançam e cantam, rendendo louvores aos deuses do panteão africano, os orixás. O desfile de um afoxé inunda as ruas de colorido, mas, o evento é muito mais que uma manifestação de alegria e diversão, representando um movimento de resistência, amor e religiosidade. 

Em Pernambuco, existem pouco mais de 40 grupos de Afoxé. Eles mantém viva uma tradição iniciada ainda no século 19, fazendo da sua expressão artística ferramenta de luta contra o preconceito racial e religioso. O presidente de honra do Afoxé Ogbon Obá, Pai Everaldo de Xangô, mais conhecido como Pai Vevé, falou, em entrevista exclusiva ao LeiaJá, da importância dessa manifestação. “O afoxé é o representante do candomblé na rua. A gente faz nossas oferendas, nossos rituais para colocar o cortejo na rua, pedindo proteção aos nossos ancestrais. Ele (o cortejo) leva toda a arte, a cultura, a musicalidade, a dança, a estética afro, a moda. É uma festa, mas dentro dos preceitos”. 

Pai Vevé explica que é indispensável pedir permissão aos orixás para colocar o afoxé na rua. Nada é feito sem que o lado espiritual esteja bem cuidado. No entanto, não é obrigatório fazer parte da religião de matriz africana para integrar um grupo. "Você precisa se identificar, gostar, porque é uma cultura para todos. Na hora que você vem e participa, você tá vivendo uma experiência, isso não quer dizer que você precisa ser adepto do candomblé". 

Para fazer o Carnaval também é necessário investimento, de tempo, dedicação e dinheiro. Os preparativos começam cedo, em meados do ano. Na sede do Ogbon Obá, localizada no bairro de Água Fria, Zona Norte do Recife, os integrantes do grupo se preparam durante os ensaios e oficinas. O dinheiro que custeia os desfiles, que vão de R$ 28 a R$ 35 mil, a depender do tema de cada Carnaval, vem de pagamento de cachês, contribuições dos próprios integrantes e filhos da casa, o Ylê Axé Ogbon Oba. As dificuldades financeiras, no entanto, se acumulam, visto que o dinheiro público investido na agremiação demora a chegar. O Ogbon Oba ainda tem cachês de 2017 a serem recebidos, segundo Pai Vevé. "O governo procurou dar um porte de empresa aos grupos, de artista que nós somos, mas dentro de uma documentação, de um edital, mas valorizar realmente a nossa cultura, o estado ainda está aquém", lamenta. 

Visibilidade

Uma das missões dos afoxés é dar visibilidade à cultura negra e ao povo de terreiro, através de sua música e dança. A luta acompanha os grupos durante todo o Carnaval e a busca pela ocupação de espaços resulta em momentos como o Encontro dos Afoxés - tradicional evento do calendário carnavalesco recifense, que acontece no Pátio do Terço no domingo de Carnaval - e a Cerimônia Ubuntu. 

Esta última, recentemente incorporada à agenda momesca da cidade, chegou como uma 'vitória' em Pernambuco. "É essencial o encontro, mas ainda é um gueto, onde não tem aquela visibilidade grande, onde as pessoas ainda são mais vistas apenas pelo povo do terreiro, não tem uma divulgação muito grande. Aí Carmem Virgínia (presidente do Ogbon Obá), ela teve a ideia de fazer um encontro com a lavagem das baianas, mulheres de terreiro, vendo que o maracatu tinha esse espaço, Carmem disse: ‘Por que o afoxé também não pode ter?’”

O Ubuntu acontece pela terceira vez, em 2020, na semana pré-carnavalesca, no Marco Zero. O evento reúne mais de 20 grupos de afoxé para uma celebração que inclui a lavagem da praça do Marco Zero com o intuito de abrir os caminhos para os foliões pedindo bençãos e paz para a festa de Momo.

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